Convencimento do público: conquistar ou alienar?

Na sociedade atual, marcada pela presença intensa da internet, nossa forma de consumir, aprender e nos relacionar mudou radicalmente. As tecnologias de informação e comunicação impulsionaram o crescimento das redes sociais digitais, que hoje moldam a cultura contemporânea.

Com esse crescimento, estratégias de convencimento se tornaram parte do cotidiano. Para criadores de conteúdo e marcas, estabelecer vínculo emocional com o público é essencial para engajar. Mas surge a pergunta: até que ponto conquistar deixa de ser saudável e passa a ser uma forma de alienação? E quais temas podem ser transformados ou distorcidos por esse processo?

É nesse cruzamento entre conexão e manipulação que as redes sociais se tornam terreno fértil para a romantização de pautas.

O poder de persuasão: quando a influência se torna manipulação

A internet nos permitiu criar laços sem fronteiras físicas. Como explica o estudo As redes sociais digitais e sua influência na sociedade e educação contemporâneas, de Santos, V. L. C. e Santos, J. E. (Instituto Federal do Rio Grande do Norte – Brasil), a dinâmica essencial das redes se baseia na relação entre usuário e comunidade.
Essa interação constante é o ambiente ideal para estratégias de persuasão, especialmente de empresas e influenciadores.

O problema começa quando esse poder “sobe à cabeça”.
Quando a busca por lucro supera a responsabilidade, o criador de conteúdo deixa de ser humano e passa a operar como uma máquina de convencimento. Surgem discursos prontos, apelos emocionais, promessas irreais e afirmações tratadas como “verdades absolutas”, sem qualquer base científica.

É desse cenário que nasce a figura popularizada como “coach da internet”: influenciadores que vendem cursos, fórmulas mágicas e métodos duvidosos, muitas vezes sem formação, registro profissional ou transparência. Embora exista gente séria na área, a falta de regulamentação abre espaço para golpes e manipulações.

O que está em pauta não é apenas o conteúdo, mas a técnica usada: quando a comunicação se apoia em falsidade, omissão de dados ou narrativas enganosas, cria-se uma comunidade alienada, presa numa bolha que trata opiniões infundadas como dogmas.

A dinâmica lembra a obra brasileira O Alienista, de Machado de Assis, em que qualquer um pode ser considerado “alienado” apenas por pensar diferente da maioria. Hoje, esse mecanismo se repete nas redes sociais: quem questiona é atacado; quem duvida é acusado. O 8 ou 80 substitui o debate.

Como as redes sociais se tornam um lugar de romantização?

As plataformas digitais também oferecem espaço para debates importantes e para dar visibilidade a temas urgentes. Mas a forma de comunicar interfere diretamente na qualidade dessa conversa.
É aí que entra o conceito de romantização.

Romantizar é transformar algo duro, complexo ou doloroso em algo “bonito”, inspirador ou leve, uma idealização que apaga a realidade. Isso acontece quando influenciadores apresentam pautas sérias com filtros poéticos, deixando de lado os aspectos problemáticos.

Por exemplo:
romantizar a pobreza é tratar a falta de recursos como algo “simples”, “belo” ou “fortalecedor”, ignorando o sofrimento real, as desigualdades e a urgência de políticas públicas. Essa prática alivia a culpa social, distorce a percepção da realidade e impede avanços.

E por que isso acontece?
Porque a romantização atrai cliques.
Ela gera identificação.
E, principalmente, viraliza.

Num ambiente competitivo, estratégias de apelo emocional, mesmo distorcidas, impulsionam visibilidade e monetização. A emoção substitui o pensamento crítico.

Assim, forma-se a relação:

Redes sociais → Romantização de temas → Público vulnerável a narrativas distorcidas

Público consciente: como não cair na romantização?

Com tanta desinformação e promessas megalomaníacas, cabe também ao público desenvolver responsabilidade.
Consumir conteúdo exige:

  • buscar mais de uma fonte
  • desconfiar de promessas milagrosas
  • avaliar dados
  • distinguir opinião de evidência

Isso se chama discernimento digital: a capacidade de navegar num oceano de informações e identificar o que é confiável, relevante e verdadeiro.

É aqui que entra a frase do físico Alfons Cornella:
“Desaprendo, logo existo.”
Num mundo carregado de “infoxicação”, saber desaprender é tão importante quanto aprender: questionar certezas, revisar crenças e deixar para trás ideias ultrapassadas quando descobrimos algo melhor fundamentado.

Mesmo não tirando a responsabilidade do influenciador, o público tem papel decisivo para impedir que discursos irresponsáveis ganhem palco. Sem plateia, não há espetáculo.

A romantização: entre o encanto e o perigo

Para reduzir os impactos da romantização na era digital, é essencial responsabilidade de ambos os lados:
quem produz e quem consome.

A internet tem força para informar, transformar e conscientizar. Mas também pode distorcer, mascarar e manipular.
Pautas sociais sérias não devem ser suavizadas, embelezadas ou embaladas para consumo. A verdade não precisa de filtro.

No fim, a pergunta que fica é a mesma que abre este texto:

Convencer é criar conexão, ou criar ilusão?
A resposta determina se estamos construindo consciência…
ou romantizando a realidade até ela deixar de existir.

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