
A discussão sobre a tal “preguiça da geração atual” já se tornou quase um bordão. Fala-se em acomodação, em falta de vontade, ou até naquele termo cansativo e extremamente estereotipado, “geração Nutella”. Mas será que a questão é mesmo desinteresse? Será que é preguiça? Ou será que a juventude de hoje só não aceita mais viver para trabalhar e, em vez disso, tenta trabalhar para viver? E, no fim das contas, será que estamos falando de falta de vontade ou de falta de incentivo?
Essas perguntas importam porque o debate nunca é simples. A forma como percebemos o trabalho mudou, e fingir que não mudou só deixa a conversa mais rasa.
A suposta preguiça da geração atual
O que muitos chamam de preguiça é, na maioria das vezes, a recusa dos jovens em aceitar práticas que foram naturalizadas por décadas. A geração Z não tolera rotinas abusivas, ambientes tóxicos, relações de poder desiguais ou exigências injustas. Quando eles questionam, denunciam ou simplesmente se negam a normalizar o que antes era tolerado, são rotulados de frágeis ou desmotivados.
Mas grande parte dessa geração rejeita esse rótulo. Eles afirmam que querem trabalhar e, na maioria dos casos, precisam trabalhar. A diferença é que não veem mais o emprego como a única peça central da vida. Outros valores ganharam espaço: saúde mental, lazer, propósito e qualidade de vida. Não é uma revolução irresponsável; é uma mudança de perspectiva. Uma mudança que, para muitos, parece incômoda.

Segundo matéria publicada no UOL Economia, em 15 de outubro de 2025, essa nova visão do mercado de trabalho provoca desconforto em quem viveu anos aceitando imposições ou acreditou que uma boa universidade seguida de um emprego fixo era garantia de estabilidade. Essa fórmula funcionou para algumas pessoas, mas nunca foi universal.
É importante reforçar: ao dizer que existem novos caminhos, não estamos afirmando que todos podem simplesmente segui-los. Não se trata de uma verdade absoluta. Cada trajetória é moldada por fatores sociais, econômicos, emocionais e familiares. E é justamente por isso que o debate precisa ser mais honesto. Quando reconhecemos que não existe apenas um único caminho, abrimos espaço para pensar possibilidades que, antes, nem eram consideradas. A questão permanece: como construir essas alternativas sem incentivo? Como buscar algo diferente quando as condições de vida são tão desiguais no ponto de partida?
Quando a falta de incentivo vira barreira real
Muitos jovens desejam trilhar carreiras que unam sucesso, autonomia e qualidade de vida. Têm talentos reais, interesses diversos e sonhos possíveis. Ainda assim, poucos recebem apoio. Todos conhecem histórias de crianças que expressaram vontade de ser atletas, artistas, modelos, criadores de conteúdo, mas foram desencorajadas por quem deveria incentivar.
E fica a pergunta: se não há incentivo desde cedo, como podem acusar os jovens de preguiça? Quando um jovem opta por um caminho longo e arriscado, costuma ser orientado a desistir e buscar um emprego fixo, muitas vezes em algo que não tem relação com seus interesses. Não há problema na CLT, que é digna e essencial para muitos. O problema está em tratá-la como o único formato possível de estabilidade.
Também é preciso reconhecer que seguir sonhos não é tarefa simples num país marcado por desigualdade. A literatura brasileira já abordava esse ponto. Em “O Quinze”, Rachel de Queiroz mostra como a falta de oportunidades define destinos antes mesmo de começarem. Em “Capitães da Areia”, Jorge Amado evidencia como escolhas individuais são atravessadas por contextos sociais. Não se trata de romantizar sonhos, mas de entender que apoiar alguém não garante sucesso, mas abre a chance de tentar.

Muitos jovens querem, sim, fazer o que gostam. Querem desenvolver habilidades, transformar paixão em profissão e buscar algo que faça sentido. Mas sem apoio, até o que é prazeroso se torna difícil. Com incentivo, o caminho não fica mais fácil, mas deixa de ser caminhado sozinho. E, no fim, continuar ou não é decisão de cada um.
Por que incentivar os jovens é urgente?
A mensagem final não é que toda pessoa deve seguir seu sonho custe o que custar, nem que abandonar modelos tradicionais é a única solução. A ideia é bem mais equilibrada. Não existe um único caminho que garante estabilidade. Existe a possibilidade de vários caminhos, e cada pessoa sabe onde sua realidade permite pisar.
Incentivar jovens não é prometer sucesso, é permitir que tentem. É validar interesses, talentos e vocações que muitas vezes são ignorados. É compreender que trabalho é importante, mas não precisa ocupar o lugar central de toda a vida. É aceitar que o mundo mudou e que as novas gerações estão tentando encontrar um modo de viver que faça sentido para elas.
Como disse Fernando Pessoa, tudo vale a pena se a alma não é pequena. Talvez o que falta não seja vontade dos jovens, mas a disposição de ouvir o que eles realmente têm a dizer.
Afinal, estamos preparados para compreender as escolhas da nova geração ou ainda preferimos julgá-las antes mesmo de tentar entendê-las?
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