
“Entre o vício e o costume, muitas vezes mora apenas um hábito que ninguém questiona.” A frase poderia vir de qualquer esquina brasileira, de qualquer conversa de bar, mas também poderia sair de relatórios médicos, que repetem há décadas a mesma constatação: apesar de ser legalizado e socialmente aceito, o álcool é uma droga psicotrópica. Atua diretamente no sistema nervoso central, altera comportamento, afeta decisões e pode gerar dependência física e psicológica.
E é justamente nessa dependência que o álcool escapa da imagem glamurizada e chega perigosamente perto daquilo que chamamos de ilicitude. A diferença é que, enquanto outras drogas carregam estigma, o álcool continua sendo tratado como parte da vida adulta, do lazer e até da identidade cultural.
O que muitos esquecem, ou talvez nunca tenham realmente parado para pensar, é que o álcool também é um tipo de droga.
Alcoolismo e drogas ilícitas: diferenças reais ou apenas diferenças morais?
No Brasil, drogas ilícitas são demonizadas e associadas diretamente ao perigo, à violência e ao fracasso. São percebidas por grande parte do público como uma ameaça imediata, já que alteram o estado mental e o comportamento de quem usa. A ciência explica esses efeitos como ação direta de substâncias psicotrópicas sobre o sistema nervoso.
Mas o ponto é direto: até que ponto esses efeitos são tão diferentes do álcool? Ou, para ser mais exata, do alcoolismo?
Alcoolismo, ou Transtorno por Uso de Álcool, é uma doença crônica marcada por compulsão, perda de controle, tolerância aumentada e abstinência quando há interrupção. Afeta corpo, mente, vínculos e rotina. Seu tratamento envolve desintoxicação, reabilitação e acompanhamento contínuo.
Esses sintomas se parecem muito com os impactos de outras drogas, às vezes de forma ainda mais grave e silenciosa. Então por que quase nunca falamos disso?
Há quem só reconheça o alcoolismo quando o desfecho já está evidente. Mas ele começa muito antes. Começa quando você sente necessidade de beber todo fim de semana, depois quinta, depois quarta, terça também. Segunda não, segunda precisa ser leve. A ironia é clara. Condenam o fim, mas ignoram os sinais do meio.
Esse comportamento lembra reflexões presentes em Capitães da Areia, de Jorge Amado (obra consagrada da literatura brasileira, embora o autor seja alvo de críticas pela forma como constrói personagens femininas, muitas vezes marcadas por estereótipos e por uma visão patriarcal que não pode ser atribuída apenas ao contexto histórico, mas também às escolhas do próprio escritor). No romance, Amado denuncia como a sociedade costuma enxergar apenas o desfecho dos desvios, ignorando suas causas, contextos e estruturas. O alcoolismo segue essa mesma lógica social de julgamento tardio

Segundo o portal MD Saúde, que reúne revisões médicas atualizadas, não é apenas a quantidade que define o alcoolismo, mas a compulsão e a dependência. A fronteira entre hábito social e doença é muito mais fina do que parece.
Por que certas drogas são demonizadas enquanto o álcool se mantém intocável?
Se é sabido que algumas drogas e componentes são utilizados inclusive em contextos medicinais, por que toda essa perseguição? E por que o alcoolismo segue sendo tratado quase como um detalhe cultural?
Uma resposta possível é que a discussão sobre drogas no Brasil não é só científica. É histórica, política e social. Durante décadas, políticas de combate às drogas funcionaram como ferramentas de controle sobre grupos racializados e empobrecidos. A criminalização foi usada para reforçar hierarquias, não necessariamente para proteger a saúde pública.
As drogas aceitas pela branquitude: o que a história revela sobre quem pode consumir o quê
A história brasileira deixa isso muito claro. No período colonial, Portugal explorou as chamadas drogas do sertão, como guaraná, castanha, urucum e cacau. Eram produtos de uso indígena, muitos com propriedades psicoativas, mas quando destinados à Europa eram vistos como riqueza legítima e valorizada pela Coroa. A exploração, porém, recaía sobre a mão de obra indígena.
Enquanto isso, substâncias consumidas por populações indígenas e africanas eram alvo de repressão. Um exemplo pouco lembrado é a criminalização da maconha no Rio de Janeiro em 1830, quando a Câmara Municipal puniu o uso do pito do pango, prática comum entre africanos escravizados. Não era sobre a planta em si. Era sobre quem a utilizava.
Povos indígenas também tiveram seus rituais perseguidos. Plantas de uso espiritual ou medicinal foram classificadas como práticas selvagens. A condenação não era farmacológica. Era cultural.
Do outro lado, elites brancas consumiam álcool sem qualquer estigma, além de utilizarem substâncias como ópio, cocaína e morfina, vendidas livremente em farmácias até o início do século XX. Apenas quando essas substâncias passaram a ser associadas a grupos marginalizados surgiram legislações de controle, como a Convenção do Ópio de 1912, refletindo-se no Brasil com decretos restritivos em 1915 e 1921.

Legenda.
“A New Vice: Opium Dens in France”, uma ilustração do Le Petit Journal, 5 de julho de 1903.
Ou seja: quando o uso se populariza e atinge outras camadas sociais, deixa de ser aceitável.
Esse histórico ajuda a entender como o álcool permaneceu protegido pela moral social. Ele sempre esteve associado às elites, à branquitude, à festa, ao ritual religioso e à vida pública respeitável. Era produto europeu, comercializado, valorizado e legitimado.
Um debate necessário sobre escolhas, moral e contradições
O objetivo desta matéria não é demonizar o consumo de álcool, e mesmo quem convive com o álcool no cotidiano sabe o quanto essa normalização é cheia de contradições. O ponto central é a hipocrisia. É a maneira como normalizamos uma droga capaz de provocar dependência, acidentes, violência doméstica e milhares de mortes no trânsito, enquanto tratamos outras drogas como aberrações sociais intocáveis.
Se o álcool coloca vidas em risco ao ponto de ser proibido para quem vai dirigir, por que tão poucos reconhecem sua potência destrutiva? Por que alguns vícios são chamados de doença e outros de crime? Quem ganha com essa distinção? Quem perde?
No fim, talvez a pergunta que mais importe seja esta:
Se o álcool também destrói vidas, o que exatamente estamos defendendo quando escolhemos condenar umas drogas e celebrar outras?
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