Violência moral é qualquer atitude que atinge a honra ou a reputação de alguém por meio de calúnia, difamação ou injúria. Pode envolver acusações falsas, humilhações, xingamentos e exposição da vida íntima. Como forma de violência psicológica, causa danos emocionais profundos e muitas vezes leva ao isolamento, à insegurança e à degradação da vítima. É prevista tanto na Lei Maria da Penha quanto em outras legislações que tratam de abuso e assédio.

Apesar disso, a violência moral e a humilhação cotidiana têm sido cada vez mais normalizadas na sociedade atual. Em Ensaio sobre a Cegueira, o autor Saramago expõe esse processo com precisão incômoda, refletindo em uma metáfora literária aquilo que vemos todos os dias.

O livro Ensaio sobre a Cegueira

Publicada em 1995, a obra de José Saramago acompanha uma cidade atingida por uma epidemia de cegueira branca, responsável por destruir estruturas sociais e expor a fragilidade humana. À primeira vista, a sinopse parece simples. Mas, quando mergulhamos na narrativa, percebemos a força simbólica usada pelo autor para abordar problemas reais.

A cegueira que se espalha pela cidade funciona como uma metáfora poderosa para a cegueira moral e social. Saramago mostra que, quando perdemos empatia e senso de comunidade, o que desmorona não é apenas o mundo exterior, mas a nossa própria humanidade. Ele expõe como o medo, o egoísmo e a indiferença podem corroer a convivência, ao mesmo tempo em que ressalta a importância da solidariedade como força de resistência.

Ainda mais forte é o ambiente do manicômio, onde os primeiros cegos são isolados. Ele funciona como um pequeno retrato do colapso social que se aproxima. Lá dentro, as regras desaparecem e surgem a violência, o abuso, a disputa por poder e a perda da identidade. Os personagens deixam de ter nomes e passam a ser apenas características, como se a própria essência humana fosse apagada junto à visão.

E a pergunta que inevitavelmente surge é: o que esse manicômio diz sobre nós atualmente?

A resposta é mais próxima e mais incômoda do que gostaríamos. Vivemos em um tempo em que a violência moral se espalha de forma silenciosa e constante, especialmente impulsionada pela internet, por discursos polarizados, por ambientes competitivos e por uma exposição contínua a conteúdos sensíveis. As relações se tornaram mais ríspidas, as falas mais afiadas e a humilhação, direta ou velada, tornou-se parte da comunicação cotidiana.

O psicólogo José Moura Gonçalves Filho, em seu estudo Humilhação social: um problema político em psicologia, afirma que a humilhação é um fenômeno simultaneamente psicológico e político. Segundo ele, o humilhado experimenta um impedimento para sua própria humanidade, algo perceptível no corpo, na fala, no trabalho e nas relações que o cercam. Essa violência não é apenas um ataque individual, é um mecanismo que degrada e desestrutura.

As formas de humilhação escandalosa são facilmente reconhecidas. São situações públicas, graves e explícitas, em que alguém é exposto com a intenção de ser rebaixado diante de outros. Causam revolta, repulsa e indignação em qualquer pessoa com sensibilidade mínima. Mas e a forma como você respondeu alguém hoje? Foi realmente firme ou ultrapassou o limite do respeito? Será que naquele comentário que você fez por impulso não existia também uma pitada de humilhação?

É nas brechas que mora a violência sucinta, aquela que passa despercebida por todos, inclusive por quem a pratica. Ela surge camuflada de brincadeira, correção, sinceridade ou espontaneidade. É rápida, cotidiana e muitas vezes considerada normal. E é exatamente essa normalização que alimenta o ciclo.

A violência moral no Brasil, quando não combatida, tende a se agravar. Pode se transformar em assédio, abuso psicológico e até violência física. Comentários pejorativos, boatos ofensivos ou ataques à reputação são atos ilegais e podem destruir não apenas a autoestima, mas também a estrutura emocional de uma pessoa. E, ainda assim, continuam sendo reproduzidos como se fossem pequenas falhas de comunicação.

Distribuição dos tipos de violência sofrida por mulheres no Acre em 2023, segundo o Instituto de Pesquisa DataSenado. O gráfico evidencia a predominância da violência psicológica e moral entre os casos relatados.

Frases comuns ou atitudes repetidas carregam impactos profundos. A violência moral pode causar depressão, ansiedade, adoecimento físico e, nos casos mais extremos, levar vítimas ao suicídio. O ambiente que tolera pequenas humilhações é o mesmo que, com o tempo, passa a tolerar agressões maiores. É um efeito dominó que começa mais cedo do que se imagina.

O que nos leva à pergunta central:

Você rejeita a humilhação escandalosa, mas quanto falta para aquela humilhação rápida e aparentemente inofensiva que você pratica chegar ao extremo que você tanto condena?

Em Ensaio sobre a Cegueira, a única personagem que enxerga é a mulher do médico. Sua lucidez representa consciência moral, coragem e a recusa em se adaptar ao que fere a dignidade humana. Ela observa a degradação em volta, mas não se permite mergulhar nela. Sua visão é o contraponto necessário para lembrar que ética, mesmo isolada, ainda pode ser motor de transformação.

Essa lucidez é também o que falta em nosso cotidiano. O primeiro passo para romper com a violência moral é reconhecer o próprio comportamento. Autoconhecimento não é apenas introspecção, é responsabilidade social. Nossa fala afeta o outro, e compreender essa dimensão é fundamental para desnaturalizar a humilhação.

Combater a violência moral exige esforço em múltiplas frentes. Cada pessoa precisa assumir seu papel na construção de relações baseadas no respeito. Instituições devem criar espaços seguros para denúncia e acolhimento. Profissionais de saúde mental têm a função de apoiar vítimas e orientar processos de cura. E, sobretudo, é preciso romper o silêncio.

Para quem sofre violência moral, reconhecer o abuso é um ato de coragem. Muitas vítimas duvidam de si mesmas, um efeito conhecido como gaslighting. Buscar apoio emocional, conversar com pessoas de confiança e procurar ajuda profissional são caminhos para recuperar a autoestima e romper o ciclo de isolamento.

Do lado de quem pratica a violência, a mudança requer responsabilidade. É necessário questionar padrões aprendidos, confrontar crenças distorcidas e admitir que a agressão nunca é justificável. Em alguns casos, a intervenção de terceiros é indispensável para interromper condutas nocivas.

A mensagem final da obra de Saramago ecoa em cada um de nós. A pior cegueira não é a dos olhos, mas a da consciência. Antes que a nossa cegueira simbólica nos arraste para um colapso ético e social, precisamos recuperar a capacidade de ver o outro com humanidade.

E diante de tudo isso, a pergunta que fica é: no seu dia a dia, suas palavras têm sido ferramentas de acolhimento ou instrumentos de humilhação que você escolhe não perceber?

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Uma resposta para “Normalização da violência moral e da humilhação cotidiana: o espelho social revelado em Ensaio sobre a Cegueira”.

  1. Avatar de rhyanne nascimento
    rhyanne nascimento

    Que texto perfeitoo!!! Ele mostra o reflexo de uma sociedade que se acostuma, pouco a pouco, com sua própria ignorância. Vamos nos cegando para o sofrimento do outro até que a brutalidade vira rotina e o desrespeito se torna paisagem!!!

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